Era um dia de sol, como qualquer outro. E como qualquer dia de sol, ele foi para a praia para tomar uma água de coco ou um suco natural, já que na sua geladeira só tem garrafas vazias. Parece que hoje vai ser como ontem, vou beber algo, dar um mergulho e ir pra casa ouvir música - pensou ao descer para o calçadão. Era oito e pouco da manhã e a rua já estava fervendo. Como sempre, tinha muita gente indo para a praia, muita gente fazendo cooper, muitos vendedores ambulantes, muitas buzinas de carrinhos de picolé, muitas crianças correndo e brincando. Mas Tiago só ouvia seus próprios passos, sua própria respiração, pois tinha vergonha de sair. A rua sempre estava cheia de mais, não precisava de mais gente pisando nela. Então ele tratou de ir logo para o quiosque de sempre e ir logo para seu mergulho matinal.
- Olá! Chegou mais cedo hoje! E então, qual vai ser a bebida? - perguntou a jovem antendente, sempre simpática. Ela parecia estar com mais calor do que normalmente pois estava com os cabelos presos no alto e de top. - Vou poder escolher para você ou já veio decidido?
- Oi Ana, não sei, talvez hortelã com..
- Ei tio, - Tiago quase teve um avc - tem uma moeda ai pra eu comer um pão? - era o menino de roupas sujas e cabelo loiro-queimado-de-sol que puxava sua blusa chamando atenção.
- Huum, tenho sim.- e antes de dar, uma ideia lhe veio como uma luz, pois reparou o olhar que a criança lançava à prateleira de salgados - Sabia que eu sei transformar essas moedas em um sanduiche com um suco? Aceita o desafio de comer todo o lanche se eu conseguir a transformação?
- Aceito sim! Mas você vai ter que fazer isso escondido pra meu irmão não ver.
- Por que? - quis saber a atendente, que havia se surpreendido com a atitude de Tiago.
- É que ele não quer o lanche, ele só quer as moedas. Depois de eu comer, você consegue transformar de volta em dinheiro? - aqueles olhos pidões e carentes eram hipnotizantes. A criança não devia ter mais de sete anos.
- Mas isso é impossível, você já terá lanchado as moedas mágicas. Você come ali na praia e eu dou mais uma moedinha pra você dar pro seu irmão então.
Tiago se sentia derrotado; sabia para que o irmão queria dinheiro. E não era para comprar comida. Agora o sol parecia mais forte e o ar mais pesado sob seus ombros. Deu o lanche para o menino e mais vinte e cinco centavos. Aquele já não era um dia normal, pensou. Pagou uma água de coco, pois não havia dinheiro para o suco, que era mais caro. Foi pra casa e nem sentiu falta do mergulho na piscina. Sentia na cara o tapa que a realidade lhe dera. Seus ombros estavam tensos, preocupados com o que o irmão faria ao menino se descobrir ele gastou o dinheiro que arrecadou. Não sabia se o que fez foi certo e qual reflexo isso teria.
- Talvez se hoje não tivesse amanhecido como um dia qualquer eu não teria saído e não.. - atrevia-se a pensar.
Então ligou o som e tudo voltou a parecer um dia normal.