- Na verdade,

pra mim não era muito bem um pôr-do-sol, era anoitecer. O céu fica num azul escuro do lado leste do prédio e do lado oeste, um tom de verde pinta aquele canto do céu ainda quente, parecendo ter sido pintado com giz de cera. As nuvens sempre presentes nesse horário parecem rígidas ao invés de felpudas. Pensando melhor, o dia aqui é muito colorido e não é só no começo ou no fim, ele é lindo o dia todo.
Ao amanhecer, o sol no inverno é meio tímido e são só uns raiozinhos de nada que dizem que já é dia. Lá pelas oito horas o astro rei resolve levantar e espanta todas as nuvens, as quais antes pareciam pesadas, dando a impressão de chuva a qualquer momento - como se isso fosse possível em junho. Depois que o sol acorda e faz a faxina no céu, este fica tão azul que parece que foi editado no photoshop, aumentando o contraste. Da janela eu vejo o reflexo brilhante brilhante que esse céu faz nas árvores e no banbuzal. É impressionante ver as sombras mais evidentes e como que as plantas gostam do sol. É como se elas ficassem mais verdes só para agradá-lo. Isso vai se tornando mais maravilhoso quando vai chegando o meio-dia; a parte do dia que eu mais gosto. É quando eu posso tirar o casaco e sentir o sol queimando de leve o meu rosto. Mas ainda tem aquela brisa gelada e cortante que equilibra a tentativa de calor que faz às doze horas. A partir daí o dia fica mais quente, mas só dura até as três e meia. Aí o sol vai perdendo as forças e o vento gelado vem com tudo. O pôr-do-sol, sempre magnífico, acontece do lado sul do meu quarto, por trás das árvores e dos bambus que passam da altura do prédio. As nuvens são um espelho que fica dourado e vermelho como o sol. É engraçado ver como a noite empurra, com grande sacrifício, o dia. Só aqui conseguimos ver esse encontro da noite com o dia.
Em uma manhã, a lua brilhava com tanta força no céu escuro e ansioso pelo sol que tive de ver as horas para confirmar se era de manhã - e era. O sol saindo timidamente ao norte e a lua brilhando no único canto escuro do céu -o lado oposto do sol... "Existe lugar mais incrível?"
Mas aí, num desses belos dias, eu fui arrancada do meu habitat e tudo isso virou um sonho perdido, uma lembrança com som de risos ao fundo. E não se passa disso.

O último sonho

Não acenda as luzes; eu gosto do escuro. Era na ausência da luz que eu ouvia meu coração dançando naquele ritmo de sempre, sentia o oxigênio entrando nos pulmões e o diferenciava do gás carbônico, saindo. Ouvia e sentia meu corpo; cada movimento, nada passava despercebido. Era no escuro que eu sentia a presença dele se aproximando, centímetro por centímetro. A cada onda de calor que ele emitia ao se movimentar, era um arrepio a mais na minha coleção de sensações. Era como se a minha pele gostasse da dele, a qual sempre era quente. A melhor parte era a sua respiração, tao perto de mim que podíamos competir oxigênio.
Mas aí, chega a pior parte. As luzes se acenderam, e eu abri os olhos. Caí na realidade do meu quarto. Desde então, nunca mais sonhei.

Se eu tivesse juízo,

...ninguém me aguentaria.
Esperar, esperar. Essa é a minha sina. Espero por férias, por amores, por emoção. Espero pelo sucesso, pela fama, pelo reconhecimento. Espero pelo futuro, esperando que seja melhor do que o passado, mas não igual ao presente. Espero ter boas ideias e saber coloca-las em ordem - que por sinal é o meu maior desafio -, espero que reconheçam que são boas, pois prefiro confiar na imaginação do que na inteligência. Inteligêcia pode-se adquirir por livros, e isso qualquer um que quiser pode ter, pode comprar. Já a criatividade, é minha. Também aguardo por coicidências, daquelas que nos desviam do caminho só pra decifrá-las.

Pra falar a verdade, o que eu mais espero, aguardo, ansio é a hora que eu vou poder ter utilidade real no mundo. É quando eu vou ter a autonomia de mudar o que acho que é errado, erros os quais muitos (inclusive eu) passam e fingem não ver. Simplesmente desviam o olhar como se outra coisa chamassem a atenção dos olhos. Vai ser a hora em que meu juízo vai agir como louco e quebrar barreiras, mexer em tabus. Minha sanidade vai querer me abandonar quando eu estiver prestes a alcançar esse sonho. Minhas palavras não vão ser como as de sempre: aquelas que caem desanimadas no chão depois de sair com preguiça pela boca. Não vão ser mais murmuradas, com vergonha de sair. Serão insistentes ao pedirem uma reação; do mesmo jeito que os nós dos dedos pedem quando batem numa porta.
Bom, me esperem. Eu vou incomodar. É serio.