Deixe a chuva acordar meus sonhos

Correndo pela areia nem sinti a chuva chegar, estava tão atordoada com tudo o que está acontecendo que não vai seria qualquer pertubaçãozinha que me irritaria.
Quando percebi que estava ficando ensopada e que não dava pra enxergar um metro através da cortina de chuva, parei de correr pra deixar a água levar meus sonhos ingênuos e para o vento me ajudar a colocar meus pensamentos em ordem.
Os meus planos agora parecem inalcançáveis e minha visão de futuro é vergonhosa de tão imatura e fora da realidade. Não sei mais no que apostar, na minha intuição ou no meu bom senso. Eles deveriam apontar para o mesmo lado? Eu não sei. Só sei que eu já estava completamente molhada como se tivesse mergulhado numa piscina.
Parou a chuva.
O calor abafa a praia mas as nuvens continuam lá tampando o sol. A paisagem ao meu redor começa a se mover, pois havia voltado a correr tomando cuidado pra desviar das conchas maiores que podem me machucar. E nao precisei mais me preocupar com o meu cabelo, agora que estava molhado nao bateria no meu olho como antes. Sigo a trilha dele na areia que o mar insistentemete tenta apagar,onda por onda mas ainda não alcança. Alguma hora eu vou alcançá-lo e eu espero que seja antes de a maré chegar nas pegadas. O ar úmido é sofocante e o clima pós-chuva é claustrofóbico.
Então, desisto.
É o que eu sempre faço mesmo, já sou experiente. Não é o que sempre me dizem, desde que eu tinha um pouco mais de um metro de altura? - Ah não leve a sério porque ela é fogo de palha, não dura muito. Mas tudo bem. Pelo menos de uma coisa eu sei: preciso achar a minha lenha.

Observações e confissões

Era como se tudo estivesse cinza só pra me ver irritada com a ausência de cores.
Até o vento, que antes eu meio que venerava, agora me irrita com esse sopro agudo e insistente. E o calor que eu me acostumei com muita força de vontade, agora virou chuva e frio (consequentemente um frio úmido diferente do que eu estava acostumada). Até a natureza parece que conspira contra mim.

Eu detesto esse lugar e ele também me detesta.

E não adianta eu me iludir com aquela ideia de "a gente pode se acostumar com tudo" ou de "não seja ingrata, você mora na zona nobre da sua cidade"  ou até mesmo: "pare de reclamar porque poderia ser pior". Essas psicologias não funcionam comigo. Eu nunca pedi pra morar aqui e não entendo por que me chamam de ingrata e mal agradecida. Tá certo que eu já me diverti muito algumas vezes, mas nada se compara à minha felicidade antiga. Esta não será facilmente alcançada pelos meus novos amigos, nem pela minha nova casa ou meu novo colégio. Pra falar a verdade, as coisas NUNCA mais voltarão ao normal. Mesmo que a gente volte pra lá daqui a uns cinco anos, fala sério, eu já vou ter me formado, não vou encontrar meus amigos na sala de aula e conversar no recreio. E se depender do meu pai, ele vai morar aqui até ficar bem caquético. Ele está pateticamente adorando isso tudo. Daquele jeito que você gosta tanto ao ponto de achar que todos também devem gostar. Isso é insuportável. Ainda mais pra mim, que detesto essa mudança e não estou nem um pouco disposta a discordar de mim mesma só pra agradar os outros.

Alguém me suicide, por favor.

E se...

A música dançava nos meus ouvidos, convidando-me insistentemente a me mexer no ritmo que ela mandava. Não era bem um convite, era uma ordem mesmo. Mal tinha saído do carro e eu ja estava me derretendo de vontade de dançar e pra melhorar, era sexta a noite. Aquela atmosfera latina com gosto de pimenta e música agitada é meu lugar preferido. É lá que eu sinto nas pernas o ritmo da barra da saia de minha amiga preferida de baladas latinas.

(Ela não sabe da preferência de Tiago, e se sabe, finge não saber. Garotas gostam de fingir que nao ligam pros caras, mas na verdade quanto mais fingem, mais apaixonadas elas estão. Lembre-se de verificar se ela está mesmo fingindo.)
Anote essa.


"Mãe, saí com as meninas e depois vou dormir na casa da Taís. Beijos, Laura."
É bom saber que minha mãe confia em mim e nas minhas amigas. Assim eu e ela deveríamos ficar mais tranquilas. Mas por que eu fico tão nervosa quando vou àquela boate latina? Quer dizer, além de eu saber que ele vai estar la, não tem mais nenhum motivo pra eu ficar assim. A única coisa de ruim que pode acontecer é o Tiago lembrar que hoje é sexta, a noite de salsa. Só porque ele dança bem não quer dizer que precisa dançar só comigo. Acho melhor eu apresentar alguma amiga pra ele.
Pode parar ali naquela esquina moço. Ei, cadê meu gloss?

continua?

Moedas podem ser mágicas

Era um dia de sol, como qualquer outro. E como qualquer dia de sol, ele foi para a praia para tomar uma água de coco ou um suco natural, já que na sua geladeira só tem garrafas vazias. Parece que hoje vai ser como ontem, vou beber algo, dar um mergulho e ir pra casa ouvir música - pensou ao descer para o calçadão. Era oito e pouco da manhã e a rua já estava fervendo. Como sempre, tinha muita gente indo para a praia, muita gente fazendo cooper, muitos vendedores ambulantes, muitas buzinas de carrinhos de picolé, muitas crianças correndo e brincando. Mas Tiago só ouvia seus próprios passos, sua própria respiração, pois tinha vergonha de sair. A rua sempre estava cheia de mais, não precisava de mais gente pisando nela. Então ele tratou de ir logo para o quiosque de sempre e ir logo para seu mergulho matinal.
- Olá! Chegou mais cedo hoje! E então, qual vai ser a bebida? - perguntou a jovem antendente, sempre simpática. Ela parecia estar com mais calor do que normalmente pois estava com os cabelos presos no alto e de top. - Vou poder escolher para você ou já veio decidido?
-  Oi Ana, não sei, talvez hortelã com..
- Ei tio, - Tiago quase teve um avc - tem uma moeda ai pra eu comer um pão? - era o menino de roupas sujas e cabelo loiro-queimado-de-sol que puxava sua blusa chamando atenção.
- Huum, tenho sim.- e antes de dar, uma ideia lhe veio como uma luz, pois reparou o olhar que a criança lançava à prateleira de salgados -  Sabia que eu sei transformar essas moedas em um sanduiche com um suco? Aceita o desafio de comer todo o lanche se eu conseguir a transformação?
- Aceito sim! Mas você vai ter que fazer isso escondido pra meu irmão não ver.
- Por que? - quis saber a atendente, que havia se surpreendido com a atitude de Tiago.
- É que ele não quer o lanche, ele só quer as moedas. Depois de eu comer, você consegue transformar de volta em dinheiro? - aqueles olhos pidões e carentes eram hipnotizantes. A criança não devia ter mais de sete anos.
- Mas isso é impossível, você já terá lanchado as moedas mágicas. Você come ali na praia e eu dou mais  uma moedinha pra você dar pro seu irmão então.
Tiago se sentia derrotado; sabia para que o irmão queria dinheiro. E não era para comprar comida. Agora o sol parecia mais forte e o ar mais pesado sob seus ombros. Deu o lanche para o menino e mais vinte e cinco centavos. Aquele já não era um dia normal, pensou. Pagou uma água de coco, pois não havia dinheiro para o suco, que era mais caro. Foi pra casa e nem sentiu falta do mergulho na piscina. Sentia na cara o tapa que a realidade lhe dera. Seus ombros estavam tensos, preocupados com o que o irmão faria ao menino se descobrir ele gastou o dinheiro que arrecadou. Não sabia se o que fez foi certo e qual reflexo isso teria.
- Talvez se hoje não tivesse amanhecido como um dia qualquer eu não teria saído e não.. - atrevia-se a pensar.
Então ligou o som e tudo voltou a parecer um dia normal.

- Na verdade,

pra mim não era muito bem um pôr-do-sol, era anoitecer. O céu fica num azul escuro do lado leste do prédio e do lado oeste, um tom de verde pinta aquele canto do céu ainda quente, parecendo ter sido pintado com giz de cera. As nuvens sempre presentes nesse horário parecem rígidas ao invés de felpudas. Pensando melhor, o dia aqui é muito colorido e não é só no começo ou no fim, ele é lindo o dia todo.
Ao amanhecer, o sol no inverno é meio tímido e são só uns raiozinhos de nada que dizem que já é dia. Lá pelas oito horas o astro rei resolve levantar e espanta todas as nuvens, as quais antes pareciam pesadas, dando a impressão de chuva a qualquer momento - como se isso fosse possível em junho. Depois que o sol acorda e faz a faxina no céu, este fica tão azul que parece que foi editado no photoshop, aumentando o contraste. Da janela eu vejo o reflexo brilhante brilhante que esse céu faz nas árvores e no banbuzal. É impressionante ver as sombras mais evidentes e como que as plantas gostam do sol. É como se elas ficassem mais verdes só para agradá-lo. Isso vai se tornando mais maravilhoso quando vai chegando o meio-dia; a parte do dia que eu mais gosto. É quando eu posso tirar o casaco e sentir o sol queimando de leve o meu rosto. Mas ainda tem aquela brisa gelada e cortante que equilibra a tentativa de calor que faz às doze horas. A partir daí o dia fica mais quente, mas só dura até as três e meia. Aí o sol vai perdendo as forças e o vento gelado vem com tudo. O pôr-do-sol, sempre magnífico, acontece do lado sul do meu quarto, por trás das árvores e dos bambus que passam da altura do prédio. As nuvens são um espelho que fica dourado e vermelho como o sol. É engraçado ver como a noite empurra, com grande sacrifício, o dia. Só aqui conseguimos ver esse encontro da noite com o dia.
Em uma manhã, a lua brilhava com tanta força no céu escuro e ansioso pelo sol que tive de ver as horas para confirmar se era de manhã - e era. O sol saindo timidamente ao norte e a lua brilhando no único canto escuro do céu -o lado oposto do sol... "Existe lugar mais incrível?"
Mas aí, num desses belos dias, eu fui arrancada do meu habitat e tudo isso virou um sonho perdido, uma lembrança com som de risos ao fundo. E não se passa disso.

O último sonho

Não acenda as luzes; eu gosto do escuro. Era na ausência da luz que eu ouvia meu coração dançando naquele ritmo de sempre, sentia o oxigênio entrando nos pulmões e o diferenciava do gás carbônico, saindo. Ouvia e sentia meu corpo; cada movimento, nada passava despercebido. Era no escuro que eu sentia a presença dele se aproximando, centímetro por centímetro. A cada onda de calor que ele emitia ao se movimentar, era um arrepio a mais na minha coleção de sensações. Era como se a minha pele gostasse da dele, a qual sempre era quente. A melhor parte era a sua respiração, tao perto de mim que podíamos competir oxigênio.
Mas aí, chega a pior parte. As luzes se acenderam, e eu abri os olhos. Caí na realidade do meu quarto. Desde então, nunca mais sonhei.

Se eu tivesse juízo,

...ninguém me aguentaria.
Esperar, esperar. Essa é a minha sina. Espero por férias, por amores, por emoção. Espero pelo sucesso, pela fama, pelo reconhecimento. Espero pelo futuro, esperando que seja melhor do que o passado, mas não igual ao presente. Espero ter boas ideias e saber coloca-las em ordem - que por sinal é o meu maior desafio -, espero que reconheçam que são boas, pois prefiro confiar na imaginação do que na inteligência. Inteligêcia pode-se adquirir por livros, e isso qualquer um que quiser pode ter, pode comprar. Já a criatividade, é minha. Também aguardo por coicidências, daquelas que nos desviam do caminho só pra decifrá-las.

Pra falar a verdade, o que eu mais espero, aguardo, ansio é a hora que eu vou poder ter utilidade real no mundo. É quando eu vou ter a autonomia de mudar o que acho que é errado, erros os quais muitos (inclusive eu) passam e fingem não ver. Simplesmente desviam o olhar como se outra coisa chamassem a atenção dos olhos. Vai ser a hora em que meu juízo vai agir como louco e quebrar barreiras, mexer em tabus. Minha sanidade vai querer me abandonar quando eu estiver prestes a alcançar esse sonho. Minhas palavras não vão ser como as de sempre: aquelas que caem desanimadas no chão depois de sair com preguiça pela boca. Não vão ser mais murmuradas, com vergonha de sair. Serão insistentes ao pedirem uma reação; do mesmo jeito que os nós dos dedos pedem quando batem numa porta.
Bom, me esperem. Eu vou incomodar. É serio.